Corro como uma louca para chegar à pequena casa onde estarei segura, e, trôpega, consigo pular a pequena sebe que cerca o quintal, alcançando rapidamente a porta da suja e fétida cozinha onde panelas servem de berço para milhares de larvas de mosquitos.A casa estava abandonada por algum tempo, mas logo se tornaria um lar muito mais aconchegante do que aquela cela onde dividia suas misérias com um bando de criminosas sem futuro, na Penitenciária Feminina de Sant'anna...Ao olhar aquela bagunça, começo a refletir sobre como tudo parecia surreal em minha vida até ali. A prisão fora sem dúvida uma injustiça... Três anos se passaram desde aquele dia fatídico... Me lembro a data do flagrante... 12 de maio de 2002... Aquela droga nunca fora minha. Mas eu é que não ia ser louca de denunciar os verdadeiros traficantes. Agora, com a vida totalmente virada de cabeça para baixo, começo uma nova etapa, dessa vez como fugitiva. Meu Deus! Que loucura eu fiz... Fugir daquele jeito debaixo de uma saraivada de tiros... Mas muito bem, agora acabou. Se a polícia não me achar, ficarei nessa casa por enqüanto. Foi muita sorte minha amiga Marry ter arranjado esse local assim tão às pressas. Tão logo ela ficou sabendo do resgate, fez contato com uns amigos e descolou esse barraco que serviu de cativeiro em um seqüestro. Infelizmente Marry não conseguiu... Estaria morta? É provável, e quase desejável diante das torturas que terá de sofrer se não tiver conseguido fugir, e, ao invés disso, for recapturada.Talvez eu não devesse ter fugido. talvez se eu continuasse a denunciar aquelas barbaridades pro pessoal lá da equipe do Tortura Nunca Mais... Nós estávamos fazendo progressos... Um diretor de disciplina sofreu sindicância e foi demitido a bem do serviço público. Isso quer dizer que ele nunca mais irá trabalhar para o Estado. Não é o suficiente, mas é um começo.O ideal seria ele ir para cadeia também e provar do próprio remédio. Mas como disse aquele pessoal lá do Direitos Humanos, isso não seria fazer cumprir a Lei, seria vingança. Eu estaria desejando justamente aquilo a que tanto combati, que a Lei seja cumprida na íntegra, e, se a Lei for injusta, que se mude a Lei!Mas... Se eu tivesse ficado, muito provavelmente teria sido morta. Muitas pessoas lá da Administração já desconfiavam do meu envolvimento com o pessoal dos Direitos Humanos. Eles poderiam forjar alguma coisa, alguma briga interna, culpar alguma das outras presas... Não! Não vou me arrepender de ter fugido!Tenho que me ocupar, tenho que arrumar essa bagunça, me livrar desse lixo, o lixo do meu passado... Limpar todos os vestígios da imundície daquela vida suja, da mãe alcólotra, do pai viciado em jogos, do abandono, do submundo das ruas, da prostituição, do uso de drogas, da cadeia... Ah sim! Esse lugar vai ficar limpo, ou não me chamo Alinne Shelman!Enquanto esfrego as panelas, vejo o meu reflexo e reflito sobre o meu futuro... Até quando me esconderei aqui? Quando essas marcas e cicatrizes deixarão o meu rosto e eu poderei sorrir de novo? Mas um barulho lá fora enterrompe os meus devneios e me traz de novo para a minha dura realidade. Com o coração batucando um samba descompassado, olho pela fresta da janela e lá vejo homens uniformizados saírem do furgão cinza e preto. Preparo-me para a batalha, a adrenalina a mil, e pego da pia uma faca afiada.Quando o primeiro abre a porta, é rapidamente golpeado por minha faca na perna, enquanto tento fugir, mas aí vem primeiro o barulho ensurdecedor do tiro, depois o silêncio...
Não sei quanto tempo se passou, eu acho que desmaiei... Ou teria morrido? Ah não! Há alguém a me observar! A casa caiu, estou presa de novo! Tento alcançar a faca que eu tinha nas mãos, mas ela não está mais lá! Cambaleando, meio tonata ainda, me levanto pronta para atacar, mas a criatuara a me observar nem se move. Então horrorizada percebo que não se trata de um policial, mas de uma mulher alada! A paisagem ali, nada tinha a ver com a favela suja onde eu me encontrava, e me sinto um pouco aliviada, mas ainda assim, muito assustada. A mulher, sem mexer os lábios fala comigo numa linguagem estranha, mas que soa perfeitamente claro aos meus ouvidos. Há nos olhos da misteriosa mulher uma luz fraca, quase inperceptível, de coloração meio azulada, que me dá paz e me tranquiliza, e ela me explica com voz aveludada, que eu fora escolhida para estar aqui no Eden, e de suas costas nascem asas brancas, com plumas grandes e ovaladas. Pacientemente ela me explica sobre a vida no Eden, e me diz que eu fora escolhida para estar aqui...
sexta-feira, 29 de maio de 2009
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